O acordo fechado na Organização Mundial do Comércio (OMC) em Bali deve ser aplaudido - afinal, o Brasil apostou no sistema multilateral de comércio e no diretor-geral da instituição, o embaixador brasileiro Roberto Azevêdo. A opinião é do embaixador Regis Aslanian, que foi chefe negociador do Brasil na Organização, em 2004, e sócio da GO Associados. O colapso de Bali significaria um revés para o esforço feito pelo Brasil desde o lançamento da Rodada Doha, em 2001.
No entanto, Aslanian faz uma ressalva em relação ao acordo multilateral sobre facilitação do comércio. "O pacote de Bali vai pouco além de uma declaração política, ao prever que, em agricultura, os trabalhos continuarão, em Genebra, sobre a mesa de negociações", enfatiza. Como um dos maiores exportadores de produtos agrícolas, caberá ao Brasil buscar a liberalização efetiva do comércio agrícola e o fim dos subsídios "imorais".
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Implicações para o Brasil
Os 159 países-membros da OMC concordaram com o primeiro acordo comercial nos 18 anos da organização, mas quais suas implicações para o Brasil e o comércio mundial? Essas questões serão debatidas pelos embaixadores Rubens Ricupero, ex-secretário da Conferência para as Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, e Clodoaldo Hugueney, que foi negociador na OMC. Nesta quinta (12), no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em São Paulo.
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Brasil precisa definir estratégia de comércio exterior, diz economista
Os grandes acordos comerciais ao redor do mundo fizeram ressurgir a discussão sobre o rumo da política externa brasileira, segundo avaliação de especialistas. "O debate estava esquecido e, de alguma forma, esses grandes acordos trouxeram-no de volta", disse Lia Valls Pereira, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV). "O Brasil precisa decidir qual é a sua estratégia de comércio exterior", disse ela ontem, durante uma mesa redonda no Instituto Fernando Henrique Cardoso sobre os desafios da economia brasileira diante do surgimento de mega acordos.
Diversos países e blocos econômicos têm buscado acordos multilaterais sem a participação da Organização Mundial do Comércio
(OMC). Em fevereiro deste ano, a União Europeia e os Estados Unidos anunciaram o início de uma negociação para criar a maior área de livre comércio do mundo. Já o Brasil tem ficado para trás - as conversas entre o Mercosul e a União Europeia para um acordo, por exemplo, não saem do lugar há mais de uma década.
Para Lia, nos últimos anos, uma das grandes apostas do governo brasileiro foi na integração da América do Sul, mas avançou-se "muito na retórica e pouco na consolidação efetiva dessa integração". "Agora, temos uma América do Sul muito fragmentada", disse.
Na avaliação do diretor-geral da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Ricardo Markwald, há uma sensação de isolamento e de que o País perdeu oportunidades. Ele produziu um trabalho que comparou o desempenho do comércio exterior do Brasil com os demais integrantes do grupo Brics - Rússia, Índia, China e África do Sul - e com outros seis países: México, Coreia, Indonésia, Turquia, Austrália e Chile.
"Sem nenhuma surpresa, a economia brasileira apareceu como a mais fechada de todas as analisadas", disse. No total, foram pesquisados 25 indiciadores, como o número de acordos comerciais de cada nação, por exemplo. "O Brasil se destaca como o país mais desconectado das cadeias de valor e por ter acordos comerciais menos profundos" , afirmou.
O diretor da Funcex também alertou para a baixa importância nas negociações internacionais que a economia brasileira assumiu para diversos países da região. "No caso da Colômbia, Chile e Peru, o Brasil aparece entre quarto e o nono lugar como um mercado de exportação", disse Markwald. "Relações exteriores e política externa não costumam ser temas muito debatidos nas eleições, mas pode ser que esse tema tenha alguma relevância na eleição de 2014."
A agenda de integração nacional também foi pouco favorecida por causa da política adotada pelo governo nos últimos anos, de proteção industrial. "Existe um diagnóstico de repensar a política comercial e industrial brasileira. É uma discussão que está apenas começando, mas pode criar um debate importante", afirmou Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes).
Nos últimos anos, a indústria aponta o aumento de custo, causado, entre outro motivos, pelo aumento do custo da mão de obra, como um dos entraves, para a perda de competitividade.

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